O cultivo do camarão marinho

O cultivo de camarão marinho teve seu início na Ásia, onde por muitos séculos os fazendeiros colhiam safras provenientes de viveiros abastecidos por marés. O cultivo moderno, tal qual como o conhecemos, surgiu na década de 30, quando cientistas japoneses iniciaram trabalhos de larvicultura com o camarão Marsupenaeus japonicus, obtendo as primeiras pós-larvas produzidas em laboratório.

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Atualmente, mais de 50 países exploram esta atividade. A Tailândia é o maior produtor de camarão cultivado do mundo e o Equador, da América do Sul. Os EUA, a Europa Ocidental e o Japão são os principais consumidores e apesar de possuírem produção intensiva e alta tecnologia, apresentam uma produção relativamente baixa.

No Brasil, a atividade de cultivo de camarão marinho surgiu na década de 70 com a criação da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN). Ela foi inicialmente suportada pelo cultivo das espécies Farfantepenaeusbrasiliensis e Marsupenaeus japonicus. Na primeira metade dos anos 80 um programa de incentivo ao cultivo de camarões marinhos possibilitou o desenvolvimento de várias empresas camaroneiras. Projetos pioneiros, subsidiados pelo governo, investiram cerca de 22 milhões de dólares na atividade. Entretanto, problemas políticos e econômicos, falta de tecnologia e a fragilidade das espécies cultivadas, dificultaram, na época, o crescimento desse setor. Ao final da década de 80 a atividade começou a adquirir caráter técnico-empresarial e as improvisações praticadas até então começaram a ceder espaço para o profissionalismo e o planejamento estratégico, fundamentado em novas tecnologias adotadas como principais ferramentas dos novos empreendimentos comerciais.

Hoje, apesar da espécie responsável pelo grande desenvolvimento da carcinicultura brasileira ser exótica, Litopenaeus vannamei, nativa da Costa Pacífico do México, América Central e América do Sul, o país já possui o completo domínio do seu ciclo biológico. Durante mais de dez anos, o Brasil importou náuplios, pós-larvas e reprodutores de L. vannamei de países localizados na costa do Pacífico, como Equador, Panamá, Venezuela, México e EUA (Sul da Flórida e Havaí). O domínio do ciclo reprodutivo e da produção de pós-larvas resultou em auto-suficiência e regularização da sua oferta, tornando possível à consolidação da tecnologia da formação de plantéis em cativeiro. Essa situação levou à ruptura da importação de matrizes e reprodutores, que contribuíam para a introdução de enfermidades, e eram utilizadas em constantes soluções de continuidade na oferta de pós-larvas, com reflexos negativos sobre o desempenho da atividade no País. O surgimento de laboratórios de produção de pós-larva e a implantação de novas rações balanceadas propiciaram o sucesso da nova espécie cultivada. Atualmente, os registros apontam a existência de 18 laboratórios de larvicultura no Brasil, localizados em sua maioria na região nordeste do país. Este fato deve-se principalmente às condições climáticas e topográficas favoráveis ao cultivo da espécie.

O cultivo de camarão marinho compreende basicamente duas fases: a larvicultura, responsável pela produção de larvas, e a engorda, responsável pelo crescimento do camarão até a idade comercial. A larvicultura é realizada em laboratórios especializados, em geral, subdivididos em dois diferentes setores: a maturação e o berçário. A maturação é o setor responsável pelo acasalamento e desova. Em geral, machos e fêmeas são mantidos juntos, em tanques apropriados, até que ocorra o acasalamento. Após o acasalamento, as fêmeas ovadas são transferidas para os tanques de desova, retornando posteriormente aos tanques de maturação. Uma fêmea pode produzir até 300 mil ovos por desova e maturar até cerca de quatro vezes ao mês.

Os náuplios recém-eclodidos vão para o berçário, permanecendo neste setor até atingirem o estágio de pós-larva. Em geral, é nesta fase que os camarões são transportados para as fazendas de engorda e liberados em tanques de terra, ficando nos viveiros por aproximadamente três meses, até alcançarem o peso ideal para a comercialização, em torno de 12g.

De acordo com a densidade do tanque de engorda e do tipo de alimentação que é fornecido, o cultivo de camarões pode ser classificado em três sistemas principais: extensivo, (1 a 4 camarões/m2, com alimento natural), semi-intensivo (5 a 30 camarões/m2, com alimento natural e suplementar) e intensivo (30 a 120 camarões/m2, com alimento consistindo exclusivamente em ração balanceada), sendo os sistemas extensivo e semi-intensivo, mais amplamente difundidos entre os países do terceiro mundo.

Apesar do Brasil dispor de condições favoráveis para a prática da carcinicultura em toda a extensão de sua costa, o desenvolvimento dessa atividade está concentrado na região Nordeste, registrando-se pequenas iniciativas nas regiões Norte, Sudeste e Sul, principalmente em decorrência de suas baixas temperaturas registradas durante o inverno. A viabilização técnico-econômica da carcinicultura marinha nestas regiões é obtida através de 1 ou 2 ciclos de cultivo/ano, diferentemente da região Nordeste, onde o cultivo é praticamente ininterrupto durante todo o ano, o que permite gerar de 2,5 a 3 ciclos por ano. A possibilidade de obtenção de um maior número de ciclos na região Nordeste deve-se às temperaturas mais elevadas e estáveis desta região.

Dados de 2001 mostravam a existência de 507 fazendas de cultivo de camarão marinho no Brasil, perfazendo um total de 8.500 ha de área inundada, sendo que 97,0% das mesmas estão situadas na região Nordeste, que é responsável por cerca de 95,0% da produção do país. Em média a produtividade de camarões cultivados ultrapassa 4t/ha/ano, totalizando cerca de 40 mil toneladas no ano de 2001, sendo extremamente alta quando comparada com a área natural que uma espécie necessita para se reproduzir (ABCC, 2002).

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